sábado, 2 de setembro de 2017

De volta para a estrada


Uma carona o deixa ali
numa velha esquina conhecida
Você anda pelas ruas em que cresceu
leva apenas sua vida, uma mochila e uns trocados amassados no bolso
Esteve longe demais todo esse tempo
para estar aqui agora e sentir-se presente
Quantos edifícios de certezas ruíram
quantas avenidas de dúvidas eram becos
a velha escola onde nunca se aprendeu nada
continua lá
pasteurizando infâncias
enquanto o mar brilha solitário lá fora
seu olhar de passagem pela janela verá talvez
os mesmos professores e alunos
na poeira do século passado
e a sua cadeira vazia
Seus navios adolescentes afundados
e nenhum resto de naufrágio veio à tona
de sua ausência
Você vai pagar um café de inverno cinza
e olha a cara monótona detrás do balcão e poderia ser a sua
fica olhando a rua da perspectiva de uma mesa
plantada no mesmo lugar da primeira cerveja
Andando por essas calçadas
cheias de gente, mas desertas
com seu casaco estradeiro
Não vai adiantar mais tocar aquela música
esquecida
rebuscar na memória os nomes que não dizem mais nada
além do vazio
escrito nas janelas abertas, nos muros
nas pontes queimando atrás dos passos inebriantes
que o levaram para as estradas
onde seus olhos ficaram muito tempo
além de si mesmo e não souberam voltar
e deparar-se com a velha cidade dormindo à beira mar
os amigos de infância estão todos sérios e pacatos
apascentando suas existências em praças plácidas e
empregos banais
enquanto você esticava o dedo na beira de estradas estranhas e longínquas
e sentava-se à espera de caronas
para a eternidade  e escrevia tudo alucinadamente
inspirado por partículas sujas de Jack Kerouac na mochila rasgada e
cheia de sonhos e visões em cadernos universitários empoeirados
Sua namorada casou-se com o dono da loja de ferramentas?!
E balança pesadamente em frente a uma pia atulhada
todas as manhãs
enquanto suas crianças correm pela casa com o cachorro
Seus cemitérios estão no mesmo endereço
ou leva-os amarrados aos cadarços das botas?!
Você entra num bar qualquer
e todos os bêbados têm a mesma cara de antigamente
mas são os filhos
e dizem as mesmas tolices acreditáveis somente
por eles mesmos
E você pode ter trinta anos de vida ou de estrada
que afinal dá no mesmo
a cidade cresce mas é só em números
e ninguém sabe porque morre
nem porque está vivo
Se você andasse por essas ruas como agora anda
escreveria os poemas que não escreveu ainda
jogaria a moeda de 1930 ao cego da esquina
ou a pedra de sarcasmo no vidro da igreja
espiaria a partida de futebol
que acontece há setenta e cinco anos
interminavelmente
baniria os domingos programados
e nadaria até a ilha dos seres pensantes
desabitada e assombrada e fundaria um país solitário?
Não, você só esta de passagem
esteve longe demais para se preocupar
com a previsão do tempo, a nova lei de transito,
as últimas apreensões de entorpecentes,
os empréstimos infalíveis, o resultado da loteria, a eleição, a missa
a moeda que caiu no bueiro
De repente alguém pensa que o reconhece na rua
ali parado em frente a loja de instrumentos musicais
olhando pelo vidro embaçado a garota ruiva de boina verde tocando violão
ela o vê pelo vidro e acena
enquanto você tenta ouvir o que ela toca
e tenta se desvencilhar do sujeito que pensa que o conhece
na garoa
e dispara a falar
(“Like a roling stone” ela toca? !)
e começa a contar os destinos de cada um de seus velhos amigos,
e que não vão além da esquina,
o comerciante, o advogado, o empresário,
o que ficou louco, esse até desperta algum interesse,
o vereador, o funcionário público, o policial, o pastor...
Em que categoria lhe enquadrariam, andarilho, aventureiro?!
Vagabundo, com certeza!
Os que morreram, os que casaram,
os que ainda andam por aí
sem nem saber se andam mesmo
A garota ruiva toca outra canção e olha
pela vidraça do tempo
mas você já não está lá
nem em lugar nenhum e
a canção ecoa nos muros e ruas vazias
enquanto o sujeito que você nem lembra quem é
continua a falar sem parar
e sua voz esvanece como névoa e ele também
Você boceja como quem ouve um padre
e dorme andando de tédio
na pequena chuva que cai desde
o século passado
acorda quando chega na rodoviária
embarca num ônibus prá qualquer lugar nenhum de novo
e abre um livro





quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Vagabundos iluminados

       
     
      ...Mas sempre viajei... Tenho a sensação estranha de estar viajando desde sempre, há séculos, de ter sido um viajante qualquer numa época em que as viagens eram feitas a pé e duravam anos e ninguém sabia para onde. A figura do vagabundo errante, clássica, mítica, caminhando calmamente através das épocas e cidades com sua roupa puída e heróica, verdadeiro revolucionário do abandono, da renúncia, de tudo e de si mesmo e de qualquer perspectiva de qualquer coisa, o anti-herói, na verdade, o  desleixado e desinteressado ( e quase sempre bêbado ) caminhante noturno que às vezes esbarra sua aparição cinzenta e cética nos ombros dos paletós tensos de sujeitos que passam longamente prá lá e prá cá pelas calçadas irregulares durante dez, vinte, trinta anos de suas vidas e sem saber realmente para quê, e só conhecem nada mais do que essas velhas calçadas cansadas quando olham para a frente e vêem apenas uma cidade esburacada crescendo sob seus pés para todas as direções, enquanto os cabelos vão debandando uma a um, fielmente. Talvez eu tenha sido mesmo um vagabundo de 1940 com uma miraculosa garrafa de vinho que nunca seca, um cigarro pisoteado e um sobretudo amarrotado e que foi visto perambulando sem nome em domingos lentos e chuvosos de inverno trinta anos depois em Buenos Aires e em Lima e em Istambul e em um porto fantástico no pacífico e encostado suspeitosamente numa parede de bar na Lapa, e trinta anos depois numa estradinha de terra de qualquer lugar com uma mochila de lona verde e um caminhar sem pressa e sonolento e será visto ainda daqui a trinta anos adentrando cidades com sua capa inconfundível de poeira e sua aura de náufrago do tempo, perdido aventureiro obscuro andarilhando desde as Montanhas-Budas-gigantescos-de-pedra do Nepal até as entranhas sórdidas de cimento e lata de uma metrópole sulamericana passando através de velhas cidadezinhas descoloridas e pálidas e desenrolando atrás de sí seu interminável carretel de histórias e estradas. Um vagabundo original nunca repete as cidades por onde passa e num país desse tamanho você pode andar por uns vinte anos sem nunca precisar passar mesmo por um lugar duas vezes- e depois- quando isso acontece você já nem lembra mais (e daí?!) e talvez até pare no mesmo balcão de um bar antigo e peça outra dose para esquentar os músculos para uma caminhada longa de um dia frio. Ratos estradeiros se multiplicam todos os anos e ninguém sabe dizer de onde eles surgem, bandos inteiros de barbudos com pálpebras vermelhas e olhar caído e mole de cão sabujo, vestidos com velhas gandolas desbotadas e botinas come-léguas apontando silenciosas para o poente. E não há como desviar deles nas ruas, você sabe, não há, e baterão em sua porta pedindo algo prá comer – Tem pão? – e o vagabundo pára no meio do nada e com ar solene e vasto e rosto cheio de sol ou de chuva, avalia a distância, respira fundo o silêncio, procura talvez um cigarro nos mil bolsos furados e caminha para seu destino que não é nem mesmo destino algum e ele sabe e toca seu passo rumo ao próximo qualquer coisa que esteja lá à frente.  Certeza?! Não, nenhuma, só a das horas fuzilando gente. E, depois, que um homem passe sua vida preferindo andar sem rumo deveria ser algo menos estranho e perigoso de que escolher passar uma vida sem rumo e parada no mesmo lugar, Ahh!! os  velhos domingos-asilos de sonhos atrofiados nos tendões rijos das canelas, com músicas simpáticas em coretos coloniais e cervejas borbulhantes em copos de plástico e a cara parada e a cara amarela, pessoal, que é “ prá fotografia parecer antiga” e ‘ estamos todos bem e vivos tia qualquer coisa ( Esperança?! ) que mora longe no interior numa fazendinha com pesadas janelas de cedro 1915 – daquelas sólidas !! – e vacas preguiçosas mastigando o capim da paciência do Tempo.
      Vagabundos encolerizados brigando com suas sombras fugidias atravessam cambaleantes a grande visão da noite urbana e agitam suas canecas de lata e escarram e xingam e vociferam e puxam seus canivetes enferrujados – “Qualé meu chapa, ae?”-- a lua é um reflexo turvo no vidro do trigésimo andar, silenciosos trêmulos e castos anjos vagabundos de encovados tristes olhos verdadeiros e límpidos voam a um palmo  do chão procurando bitas de cigarros nas calçadas sujas e rachadas e caminhando solitário pela madrugada abandonada você pode e é capaz de topar com um desses querubins quebrantados e de repente ao olhar seus olhos macilentos  todo o mistério estupendo do por que  Fomos Todos Expulsos Do Paraíso ?!! ( e eu que nem nunca estive lá!! ) se revela tão desinteressante e óbvio e tardia e tediosamente que se é forçado a entrar na primeira espelunca aberta que se encontra e tragar algo qualquer mais potente enquanto insólitos poetas estrábicos pela embriaguez escrevem loucos poemas épicos sobre o nevoeiro cinzento da mente nas portas e paredes descascadas do banheiro, todos os banheiros de todos os bares do mundo.
      Velhos vagabundos aposentados que não fazem mais do que continuar vagabundeando sentados em alguma soleira de porta emprestada picando fumo e lendo – só olhando – jornais antigos e surreais, e, é claro, o enorme cão pardacento vagabundo que me acompanhou por milhões de quilômetros numa estrada imemorial e com o qual dividi afortunadamente a janta numa fogueira ritual na floresta, o que nos tornou irmãos para todo o sempre, Amém! Vagabundos astecas acocorados na Terra Sagrada enrolando grossos baseados na palha de milho olham o mar profético perdidamente... Um vagabundo ancestral inaugurou a primeira estrada do mundo – antes das cerimônias oficiais e homenagens aos monarcas de plantão – ele já ia distante com seu saco de viagem amarrado às costas com tiras de couro e alguma beberagem mística e estranha e forte na garganta, enquanto velhos vagabundos gregos procuravam o átomo; Guevara vagabundeando com seu amigo engraçado numa moto depois a pé pelos caminhos duros da “Maiúscula América” fervilhante de ingredientes para a Grande Revolução; vagabundos carcomidos puxando suas carroças feitas com carcaças de geladeiras e rodas de bicicletas pelas ruas estúpidas e cruéis e bebendo cachaça nos becos sempre à espera do Apocalipse matinal; vagabundos nos calçadões tentando descolar “um qualquer prá inteirar a passagem, moça” ; um vagabundo louco que escrevia sobre outros vagabundos loucos; vagabundos iluminados subindo montanhas de mil metros para sentarem no topo com os pés balançando no Vazio da Eternidade Seqüencial e simplesmente não pensarem em nada além de nada e mais nada imersos na brandura que quem mais saberá?!
      Um legítimo vagabundo não tem pátria nem casa, ele pertence a todos os lugares e à nenhum , flutua nas asas das circunstâncias e às vezes nem lembra seu nome, então inventa outro –“ Nobre cavaleiro sem cavalo da Ordem dos Vagabundos Errantes a partir desse dia que ninguém lembrará será para sempre chamado de O-que-anda-a-pé-pelas-estradas que vão para lugar nenhum e quem se interessa mesmo, pouco importa, tanto faz, agora por favor garoto passa prá cá esse bule de café fumegante pra que eu possa dar um trago e começar a lhe contar sobre como eu e um outro maluco fomos parar numa Kombi cheia de índios de pileque e de olhos faiscantes que queriam ir até a próxima cidade conseguir mais álcool e “roupas de branco” e de quando garimpei diamantes nos rios escuros cor de chá-mate da Chapada Diamantina – te juro que ainda hoje vejo a cor do fundo desses rios pouco antes de dormir!!” – e você nem sonhava ainda em despencar nesse mundo doido e estar aqui agora enquanto eu aperto essa erva potente que um surfista australiano que conheci em Recife trouxe do incrível México da Serpente Emplumada e do peiote...” – Um velho andarilho com sua    misteriosa e esfarrapada mochila de veterano – “Eu ando por aí desde o começo do mundo!!”- e a testa larga e dura e franzida como a dos profetas vagabundos do deserto que comiam gafanhotos e mel e que antecederam o Grande Vagabundo gentil e Genial do qual pouca gente sabe qualquer coisa até hoje!! Vagabundos catadores de cogumelos que parecem surgir nos pastos junto com os cogumelos, brotando depois das chuvas; o vagabundo com um violão não pode ser esquecido, é a síntese andarilha de todas as especulações-arquétipos-filosóficas sobre vagabundagem, o único tipo de vagabundo que nunca está só, porque ele tem um violão, mas às vezes, ele o perde em bebedeiras e então ele se torna o vagabundo mais triste do mundo, como Carlitos; vagabundos malucos de estrada “mangueando” rango e carona em postos de gasolina-restaurantes de caminhoneiros, vagando de cidade em cidade pelos calçadões e praças e praias e bares e todos os lugares com pulseiras e colares e canções e anéis e histórias loucas respingando de suas roupas sofridas e do brilho vibrante dos seus olhos; jovens doidos mochileiros com barbas longas e duras chamuscadas de sol e fumo lançando-se nas fronteiras de si mesmos e nas pegadas milenares do andarilho eterno que criou esse mundo e Tudo e que somos nós mesmos.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Balada estradeira ao som chiado de vinil e chuva

          

         Você já viu um velho andarilho sumir na sua frente inexplicavelmente perto de uma fogueira na mata a beira de uma estrada sem fim numa noite de lua imensa e fria depois de uma longa caminhada junto com ele todo o dia?! Sentiria medo?! O mesmo medo cotidiano banal que carrega nos bolsos e na testa?! Você já viu uma prostituta feia e gorda e bêbada e triste, (como não ser triste?!), às três e trinta da madrugada num bordel-boteco a beira da rodovia Fernão Dias? Não, não me pergunte como fui parar lá! E nem gostaria de saber! Ela balança a cabeça com um pedaço de sorriso pendendo da face inflamada e balbucia alguma frase incompleta, desconexa como sua própria figura. E é provavelmente mãe de alguém nesse mundo. E se visse você viraria o rosto e correria perdidamente na noite estranha? Já dormiu em cubículos carcomidos ao lado de assassinos e acordou ileso na manhã seguinte e dividiu com eles pão envelhecido sentado num canto úmido?! Já viu de perto aquela menina bonita da rodoviária que há anos não vai mais à escola e freqüenta boleias de caminhão na noite oleosa e fétida em postos de gasolina perdidos em alguma estrada sem lei?! Já viu a cara grossa e espumosa dos donos desses caminhões estacionados no chão duro e áspero e violento desses postos?! Já tomou cerveja num mesmo balcão de mármore manchado de café ao lado desses caras ou trocou duas palavras com tais sujeitos?!  Sentaria tranquilamente ao lado deles?! Já olhou nas órbitas um pai esquelético recostado numa parede descascada fumando crack o dia inteiro sob um sol dos trópicos liquefazendo o cérebro enquanto suas duas crianças brincam na areia da praia a cinqüenta metros?! Suas mãos não são mãos, são garras magras e tremulas de pássaros implumes à beira do abismo, sua face encovada é tudo o que não se quereria ver numa manhã radiosa de verão e se você o visse lhe pedindo um cigarro com um fiapo de voz escorrendo entre os lábios ressequidos como o chão da caatinga e segurando seu braço fracamente?! Elaboraria algum discurso cristão ou o quê?! De que serviria seus diplomas automóveis sofás livros erudição discursos telefones cartas de crédito comida enlatada insossa ar condicionado se de repente no meio de uma madrugada indo pra casa depois de uma festa o taxista colocasse um cano na sua têmpora exigindo aquilo que você não tem nesse exato instante?! Já sentiu frio tendo de dormir em prédios gelados abandonados depois de vagar pelas ruas desertas de alguma cidade inexpressiva, repassando mentalmente toda sua vida enquanto caminha com um resto de conhaque e uma mochila sem rumo sem chegar à conclusão alguma sobre qualquer coisa em pleno inverno abaixo de zero e todo saco de dormir e papelão e roupa e cobertor e álcool goela abaixo que se consiga parecem insuficientes para aquecer o corpo, quanto mais o espírito que vaga mais do que as pernas?! Pensaria no que nessa hora além da sua cama macia e distante e vazia?! Teria alguma idéia grandiosa no frio de cinco graus negativos?! Choraria?! Já sentiu raiva tanta raiva da pessoa que ama que teve vontade de abandoná-la numa estrada imensa e deserta?! E admitiria isso?! Já escreveu cartas cartas cartas a mais de três mil quilômetros de profundidade dentro da noite distante de qualquer lugar que conheça, cartas que nunca poderiam nem seriam jamais respondidas e sequer enviadas e se tivesse que escrevê-las escreveria para quem além de si mesmo?! Já escreveu bobagens e mensagens proféticas em muros noturnos da solidão andarilha bêbada querendo realmente que o mundo acabasse pra assistir tudo num balcão de bar?! Já escreveu o que até agora afora os papéis que preenche fielmente todo dia e mês e ano e todo ano são todos iguais?! Já se pegou de repente caminhando a esmo numa estrada de asfalto ou terra e não soube responder o que isso poderia querer dizer?! Caminhando foi até onde e aonde chegou parado?! Já viu a fome retorcendo estômagos infantis e a morte sorrindo e jogando ioiô com essas pequenas vidas na beira de um penhasco ou de que jeito se sentiria se de repente sem saber como estivesse vestindo roupas velhas e rôtas numa fila de sopa numa praça ou de um albergue perto da linha de trem, com bolsos e sapatos furados e nenhuma meia e nenhuma sorte, sorvendo o caldo ralo do dia a dia das ruas com uma colher trincada?! Esconderia o rosto entre as mãos?! Já viu as fogueiras urbanas flamejando embaixo de pontes e viadutos e os vultos mortiços ao redor delas esfregando as mãos e bafejando no ar viciado e úmido, vestidos como espantalhos cambaleantes saídos de algum campo estéril de veneno direto para o asfalto incompreensível?! Já teve que trocar socos e pontapés com enxames de trombadinhas de olhos injetados de fogo numa rua cega e faminta de sangue e de sombras, para não perder o pouco que tinha, ou seja, quase nada, uma mochila esfarrapada, uma jaqueta esfarrapada, uma vida esfarrapada?! Os cortaria com uma navalha anônima se esta surgisse misteriosamente em suas mãos?! Negaria cigarros amarrotados aos mendigos das escadarias de igrejas seculares e sujas?! Pediria cigarros amarrotados aos transeuntes se você fosse um desses mendigos nas escadarias?! Já foi jesus quantas vezes para desconhecidos nas ruas ou andou por sobre poças d’água entre coxos mentais e cegos desleais e almas mortas sepultadas em corpos ainda vivos na sedenta espera milenar do milagre maldizendo o dia do nascimento?!  E já foi Judas quantas vezes para quem?! Quantos mitos criou para si mesmo para que não o descobrissem sob a máscara e quantos destruiu para que só sobrasse a máscara amalgamada ao rosto no fim?!   Já viu os olhos vazios dos paranóicos terminais fixados no silencio sepulcral de todos os séculos?! Já viu de perto como se comporta alguém roubado até de sua própria humanidade e os abutres engravatados redigindo relatórios relatórios relatórios  grampeando números metálicos nos colarinhos das multidões  e carimbando códigos de barra nas testas adestradas e colocando-as em marcha contra outras multidões apascentadas com toneladas de feno televisivo?! Já pediu comida nos portões das casas?! E digeriu quantos nãos com um nó na garganta dura?!E regurgitou quantos deuses em portas de igrejas folheadas a ouro?! Já convulsionou epilepticamente exaustivamente durante horas em corredores conturbados de hospitais públicos ou viu isso acontecer quantas vezes?! Dormiu em quantos hotéis esburacados e cheirando a mofo e naftalina pendurados por um fio trêmulo nos becos da eternidade e ouvindo os gritos de alguma mulher sendo espancada no quarto ao lado e caminhou calmamente até o banheiro no final de um corredor alaranjado pela fraca luz vacilante e fez a barba num espelho gorduroso e trincado com manchas de ferrugem nas bordas, olhando pela janela quebrada os viciados de todos os estágios e substancias e espécies se movendo como lagartas pálidas no chão tortuoso sequiosos de mais e mais e mais extremos torpores?! Vomitaria com o cheiro desses lodaçais humanos?! Ou cantaria uma coisa qualquer banal entre os cinzeiros abarrotados de restos de vidas e baratas e dias riscados nas paredes imundas?! Já esteve lado a lado com impossíveis loucos descalços em busca do umbral da saída do universo em meio a infinitas portas fantasmas de seus crânios erráticos escavando o chão de neblina e sonho enquanto sirenes de incêndio esquartejam o sono da cidade e ecos nômades de sua própria historia melancólica jorram espasmódicamente de seus poros num suor febril ao amanhecer lilás sem finalmente descobrir se esse mundo é real?! Qual a dose mais forte de quê já correu em seu sangue esmaecido?! De vida?! A vida em doses controladas é mais segura?! Não, eu não estou falando de nada, mas talvez esteja. E o que falavam os que invadiram manhãs minúsculas de rotinas, miudezas sentimentais a granel, intermináveis lamúrias cafés fracos sobre mesas treinadas em frente a televisores, com suas vozes de alta tonelagem de vida e loucura por viver espatifando vidraças, cotidianos baratos, xícaras banais, sexo banal, enlouquecendo ouvidos jovens e fibras musculares, arrastando tudo num êxtase de palavras e sons e movimentos e depois, como um fim de tempestade no mar, a calmaria, o silencio eloqüente das águas?! Já sentiu o sangue escorrendo atrás da orelha quente pelo pescoço e pelas costas tendo de correr tudo o que pode de cães reais e cães humanos uniformizados famintos roedores de ossos de lavradores, estudantes, grevistas, trabalhadores, em meio ao caos lacrimogêneo estúpido?! Saberia o que conversar com meninos franzinos de dez, doze anos de idade portando pistolas e fuzis no alto de morros no alto de noites de vigília?! Jogaria bola com eles?! Ou baralho?! Valendo dinheiro?!  Negaria um cigarro?! Pregaria a “Palavra”?! E suas pequenas irmãs vendidas para turistas gringos sebentos em calçadões coloridos do verão tropical de uma cidade maravilhosa pra quem?! Pagaria quanto para não ter de ver isso?! Já teve de se encolher no chão de uma esquina de uma rua qualquer à luz do dia e ficar ouvindo o ricochetear de balas perdidas procurando alvos a esmo e crânios para se alojarem nos segundos mais intermináveis de sua vida?! E sentir a carne queimando e o cheiro de pólvora nas roupas e permanecer vivo! Não, não estou falando de nada, mas estou. Talvez nem esteja lembrando, mas se lembrar diga, você já viu índios embriagados deitados com a cabeça no pé dos muros pichados das grandes capitais?! Já fez longas caminhadas noturnas pela sua cidade olhando através da grade de chuva?! Reconheceu alguém?! Reconheceu-se hoje de manhã no espelho ao lavar o rosto?! Viu algo qualquer que não estava lá antes?! Antes de quê?! Talvez uns traços mínimos de algum outro rosto insondável ou de vários outros misturados, misturando-se, sobrepondo-se no espelho caleidoscópico da existência: uma criança assustada na noite, um atirador infantil em seu posto, um viciado arrastando andrajos sob uma janela de hotel, um louco alucinando garatujas proféticas nos viadutos, uma puta triste bêbada gorda feia a beira de uma rodovia nevoenta, um policial imbecil encolerizado, um lavrador espancado, uma mulher espancada, um anjo espancado, um poeta epiléptico vomitando no lodaçal humano, um doido fantasmagórico recitando crepúsculos, um pregador ricocheteando palavras vãs no crânio, um andarilho pedindo cigarro na noite abafada dos trópicos, uma menina parada numa rodoviária sem onde ir sem dinheiro sem nada, talvez apenas uma mochila esfarrapada, uma vida esfarrapada, um judas correndo em círculos, um ladrão de olhos injetados de chamas com uma navalha embriagada esquartejando o sono, súbito o dia surge no espelho vazio da manhã, um sonho, sem espelhos, sem rostos, só um, o mesmo de todo dia, afinal, não você nunca viu nada disso não é mesmo?! Está certo disso?! Mas os rostos estão todos lá, no espelho, quando você vira as costas eles viram também, sem memória da eternidade nem do momento, misturando-se ao seu reflexo e escorrendo toda noite de seu sono gelatinosamente pelo colchão lençol travesseiros até ao chão e inundando os quartos banheiros salas cozinhas com café fumegando e arrastam-se pelo vão da porta e emergindo lá fora nas ruas e misturam-se nos cruzamentos quartos de hotéis bares postos de gasolina boleias de caminhões ensandecidos rodovias chuvas prédios rodoviárias estranhas estradas cidades praças asilos cemitérios ambulantes praias visões convulsivas de hospitais através da grade enferrujada da janela quebrada do sonho enquanto o radio relógio estridente trepida e salta na cômoda na manhã brilhante do novo milênio com uma canção antiga numa voz suja, estranha e esganiçada escapando de alguma fresta do tempo e ecoando na casa suspensa na mansidão, rasgando o domingo e a sua existência... “Something’s happenning’s but you don’t know watt it is, do you,  Mr Jones?!”


     



   

sábado, 17 de novembro de 2012

Longe Sempre Demais



Minha alma na dispersa nas marés do tempo
sem carne e sem forma
alheia a qualquer sonho ou pesadelo.
gelo sobre cumes infinitos
onde segundos são milênios
e a única voz presente é o eco interminável
do silencio.
Pairando sobre a solidão perene de planetas inabitados,
sombra eterna encobrindo sóis e eras.
Tudo vendo, tudo alcançando
sob minhas longas barbas que são vento
estremecendo estrelas.
Minha fala move-se nas tempestades
como um labirinto de luzes na densa névoa
do universo.
Longínquo Sentinela do Desconhecido
além do imenso escuro da ilusão
esse mundo é cárcere pequeno para minhas asas
que se expandem longas e disformes
na velocidade de um cometa derrubando mitos.
                                                                            Infinita

Loucura
                                        
 Se espalhando sem
                                                                                    
                                                                           Destino

sábado, 16 de julho de 2011

God is dead

Onde os deuses jogam cartas
sobre a humanidade
desinteressadamente...
As migalhas que caem
de suas mesas inalcançáveis
são os nossos dias...
Onde os nomes nada dizem de eterno...
Apenas
o vazio
do silencio
em resposta
à minuscúla voz humana
clamando no deserto
do tempo
na areia
da ampulheta dos séculos
escorrendo dos olhos ásperos...

domingo, 3 de julho de 2011

Queen of the railway


Ela está sentada perto do mar
como antigamente,
seus olhos são duas ilhas silenciadas,
há mais do que talvez possa saber
nesse olhar sem data, vindo de percorrer estradas
sua mochila verde empoeirada repousando na areia
seu casaco e seu chapéu desbotado
não dirão jamais quem ela é.
Nuvens em forma de cavalos saltam sobre montanhas
enquanto a lua cravejada de estrelas
eleva-se gotejando mar.
Uma longa faixa cinza ondulante some na distância,
o retrato dela mesma numa casa
nunca retornada, cidades, praças bucólicas penduradas no tempo,
avenidas entrelaçadas a bares, canções, luzes,
fogueiras em praias selvagens,
seu violão viajante, mais amável do que muito companheiro,
mais companheiro que qualquer amante,
toca uma canção sem fim, as árvores sabem seu nome
cachoeiras cantam suas lendas, houve um tempo
em que uma menina olhava o mar
com seus silêncios interiores movendo cores, sonhos, mundos
ela era calma e clara como as manhãs azuis,
seus cabelos cresceram como seus horizontes
há uma voz maior do que qualquer voz de fora,
indizivelmente única, uma noite
as janelas amanheceram diferentes,abertas para um novo sol
as ruas nunca mais as mesmas
os rumos sempre mais e muitos
o tempo, o tempo que se vive
é uma nota numa canção maior,
encontre a nota que preenche sua vida
e estará compondo uma parte da eternidade
naturalmente...
Imagens de acampamentos, rios, viagens, rodeiam-na,
Motocicletas cortando estradinhas ermas de terra
levantando nuvens vermelhas de pó
entre milharais e estrelas
onde fazendas com varandas brancas de madeira
recebem o sol poente tranquilamente,
crianças pescando em riozinhos calmos antes que o tempo
as pesque, ela segue
adentrando cidades e deixando-as
sem tristeza, ou sem tristeza que não se atenue
andando, escrevendo
sua história no vento
solidão é não saber estar consigo a cada momento.
Montanhas caminham para o mar em seus olhos
as ruas movem-se em silencio, os portos
estão vertendo barcos que não voltam mais
nesse momento alguém está nascendo e
percorrerá a estrada do tempo, enquanto
alguém está morrendo, a diferença, nenhuma,
a não ser o movimento entre esses dois momentos,
o que se chama de vida, a ser preenchida
com tudo o que se pode ser.
Ela está anotando em seu caderno o poema do mundo
Sentada olhando o mar
vê os carros correndo com seus faróis incansáveis
as sombras dos morros descerem sobre a rodovia ainda quente
pessoas em seus nomes provisórios voltando para casa lentamente
a fumaça que sobe sobre os telhados vermelhos, café
de fim de dia sobre mesas nostálgicas,
vê o filho que nunca teve nadando nas ondas brancas
correndo atrás de pássaros fugidios na praia das eternidades sobrepostas
todas as mães que sempre teve estão agora orando juntas por ela
como se estivessem de mãos dadas
invisivelmente
em algum lugar desse mundo ou de outros
doces senhorinhas simpáticas e acolhedoras que mesmo sem compreende-la
deram-lhe cama, comida, banho, e o eventual calor
de algum filho apaixonado, que, ficou também pelo caminho.
  como tudo,afinal, fica,
vê intrincados desenhos de estrelas, faróis longe longe longe
nunca alcançados, rios, de rumos e de gente,
o longo longo longo poema do mundo e seus pensamentos.
ela sobe a encosta onde antigos místicos imemoriais
meditaram durante séculos até transformarem-se na pedra
sobre a qual sentaram-se
e vê o tempo modelando seus trajetos invencíveis,
dando forma a topos de montanhas, oceanos, penhascos,
cobrindo gerações sem que sequer percebam
ou possam fazer algo além de olhar o céu da noite
e espantarem-se.
ela olha o mar, profundamente
enquanto seus dedos suaves deslizam nas cordas do violão e escuta a melodia que há em volta, em tudo,
no vento, e é irônico pensar
que há destinos cujo destino é ter destino algum
a não ser, percorrer-se, apenas,
não estar ligado a nada em especial e
a tudo, intrinsecamente,
seu perfil de estradeira silhuetado no alto de uma montanha
ao por do sol, olhando o mundo, ouvindo
a flauta do silencio incomensurável dos tempos,
sabendo, que tudo o que se pode saber
é só o que se vive, por inteiro,
a fogueira crepitando no inverno, um poema
escrito na areia, um livro achado num acostamento,
ou roubado num sebo, a sopa deliciosamente solitária,
a vida, perigosamente livre, não por amor ao perigo,
mas amor à vida, o único casamento: consigo,
sem vasinhos de crisântemos na janela, geladeiras cheias, domingos
pré-fabricados para ninar sonhos alheios.
Ela é uma visão doce e misteriosa numa esquina na poeira
com seus cabelos e caminhos soltos no vento
pessoas a vêem por um momento
e não sabem dizer de onde vem nem para onde vai
saltando clandestinamente
num dia de suas vidinhas corriqueiras,
em suas cidades apascentadas e ocas,
de carrocerias de caminhões
em postos de gasolina
com sua sombra aventureira e olhar enigmático flamejante
vindo de perscrutar os desvãos do tempo
onde ninguém a encontra duas vezes
Ela é louca e linda e vive como o vento
e é só uma mulher na estrada
onde você provavelmente morreria de medo
sem os seus contatos, rotinas, certezas,
sua pele é macia sob a poeira, seus olhos,
claros olhos marinhos cheios de calmarias e tempestades
seu toque é como a brisa dos campos onde só ela esteve,
fugidia como as cores da alvorada
ela passa
rainha andarilha das estradas, belo fantasma indelével
com sua longa túnica de cabelos dourados contra o vento
nua sob a lua das praias desertas,
ela dança com seus anéis, colares tilintantes, lugares
dirão que a viram de passagem, homens
que a amaram sonharão seu retorno, é tarde,
enquanto a noite recolhe a humanidade
e as sombras se tornam só uma
em algum lugar, ao longe,
ela olha o mar,
serenamente
e toca seu violão e toca a lua